A primeira marcha do Acampamento Terra Livre (ATL) de 2026 reuniu milhares de manifestantes na Esplanada dos Ministérios, nesta terça-feira, 7 de abril. Os povos do Baixo Tapajós estiveram na linha de frente da mobilização, carregando esculturas em formato de crânio e cruzes pretas com nomes de leis e projetos de lei que consideram nocivos ao meio ambiente.
Os manifestantes partiram do Eixo Cultural Ibero-Americano (antiga Funarte), onde o acampamento está concentrado, sob o mote Congresso, inimigo dos povos. A marcha foi acompanhada pela Polícia Militar e pelo Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF).
Em sua 22ª edição, com o tema Nosso futuro não está à venda – a resposta somos nós, o ATL busca pressionar o poder público em defesa dos territórios indígenas. A estimativa é de que até 8 mil indígenas participem da programação, que ocorre entre os dias 5 e 11 de abril, número semelhante ao das duas últimas edições.
“O objetivo é trazer a mensagem de que os povos indígenas vão lutar pelos direitos garantidos na Constituição Federal: contra o marco temporal, contra a exploração econômica dos territórios e contra a mineração”, afirmou Ricardo Terena, da Terra Indígena Araribá (SP) e integrante do departamento jurídico da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).
A marcha ocorreu na véspera da retomada do julgamento do projeto Ferrogrão no STF (Supremo Tribunal Federal), prevista para quarta-feira (8). O projeto prevê a construção de uma ferrovia de 933 km, ligando o município de Sinop (MT) ao terminal portuário de Miritituba (PA).
Em frente ao Congresso Nacional, o carro de som concentrou dezenas de lideranças indígenas que se revezaram em falas sobre as lutas em seus territórios.
Luene Karipuna, da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (Apoianp), criticou o governo federal pela exploração de petróleo na foz do Amazonas, conduzida pela Petrobras.
“A estrutura da Petrobras foi instalada sem consulta aos povos indígenas. Já houve vazamento de fluidos, e não sabemos se são tóxicos. O discurso do próprio presidente é contraditório, ao afirmar que é necessário explorar petróleo para uma transição energética justa. Mas temos condições de transformar a Petrobras em uma empresa do povo, sem passar por cima dos nossos direitos”, declarou.
O Brasil de Fato DF solicitou um posicionamento da Petrobras sobre a instalação do Bloco 59 e os protocolos adotados para prevenção e monitoramento de vazamentos na área e quais as medidas estão sendo adotadas para garantir a transparência das informações e a segurança ambiental e das comunidades locais. A reportagem aguarda posicionamento para atualização da matéria.

Representando o Movimento de Mulheres do Médio Xingu, Sol Juruna, da Terra Indígena Paquiçamba, destacou a mobilização que ocupou a Funai por 31 dias em protesto contra o projeto de extração de ouro da mineradora canadense Belo Sun.
“A Funai e o Ministério dos Povos Indígenas têm sido omissos na luta contra a Belo Sun”, afirmou a liderança. Procurados pela reportagem, os órgãos não responderam até a publicação.
O projeto Volta Grande, da Belo Sun, prevê a exploração de ouro a céu aberto na região. “Não queremos mais um empreendimento de morte no rio Xingu”, acrescentou Sol Juruna.
Paulo Henrique Rikbaktsa, da Terra Indígena Rikbaktsa, no norte de Mato Grosso, também discursou em defesa do rio que atravessa seu território.
“O rio Juruena está sendo pressionado. A água é sagrada e garante a nossa alimentação. Hoje, com o avanço de grandes empreendimentos energéticos, várias usinas cercam o nosso rio”, afirmou. Segundo ele, o peixe já começa a fazer falta na alimentação cotidiana.

Em frente ao Congresso Nacional, povos do Baixo Tapajós realizaram uma intervenção com esculturas de crânios, sujando-as de barro e ateando fogo em parte delas. O ato, segundo participantes, buscou representar os impactos de leis e projetos considerados antiambientais, como o PL 4039/2024, o PL 717/2024, a PEC 48/2023 e a Lei 14.701/2023.
No início do ano, indígenas da região, que reúne 14 etnias, protagonizaram uma mobilização em Santarém (PA), contra a concessão de hidrovias nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins.
“Esse encontro de povos é extensão da luta do nosso território. E a gente aproveita a força da encantaria, da espiritualidade de todos os povos juntos, para defender nossos direitos”, afirmou Auricélia Arapiun, liderança do Tapajós.

Também nesta terça (7), o Congresso Nacional realizou uma sessão solene em homenagem ao ATL, no mesmo horário da marcha. À tarde, uma audiência pública para debater o setor hidroviário brasileiro contou com a presença de lideranças indígenas, como Alessandra Munduruku, representando a Apib, e Lukas Tupinambá, do Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita).
O Brasil de Fato DF solicitou posicionamento da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) sobre os empreendimentos e impactos aos povos originários. A reportagem aguarda posicionamento para atualização da matéria.
Apoie a comunicação popular no DF:
Faça uma contribuição via Pix e ajude a manter o jornalismo regional independente. Doe para [email protected]
Siga nosso perfil no Instagram e fique por dentro das notícias da região.
Entre em nosso canal no Whatsapp e acompanhe as atualizações.
Faça uma sugestão de reportagem sobre o Distrito Federal, por meio do número de Whatsapp do BdF DF: 61 98304-0102

